sexta-feira, 27 de março de 2009
domingo, 22 de março de 2009
Reflexões
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinho.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"
Nunca sei como vou começar, nem muito menos quais terão sido as palavras que escritas no momento em que eu decidir que está pronto: que falei o que queria dizer.
Talvez eu nunca tenha dito uma palavra sincera - talvez as coisas que disse eram apenas subterfúgios de uma alma confusa entre o certo e o errado. Entra a esperança de uma vida feliz e a certeza do desconhecido.
Passo os dias observando os transeuntes, seus sorrisos e suas lágrimas, procuro em cada olhar um sentido que explique meus próprios caminhos - mas volto para casa com a única certeza de que não conseguirei nestas atitudes encontrar a paz que tanto quero, os sorrisos que tanto espero.
Ao menos algumas vezes, quando estou sozinho e pensando, me pego em devaneios irreais: como que em sonhos desenhados num lugar só meu. As cores destes sonhos, as luzes desses dias - tudo me faz sereno - sou feliz e dócil nestes sonhos como as estrelas em seu rumo ao infinito.
"Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
E abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nesse último gesto!"
*Poesias de Cecília Meireles
A Lucidez Perigosa
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
(Clarice Lispector)



