“Deixou de chover, não há cegos de boca aberta. Andam por aí, não sabem o que hão de fazer, vagueiam pelas ruas, mas nunca por muito tempo, andar ou estar parado vem a dar no mesmo para eles, tirando procurar comida não têm outros objetivos, a música acabou, nunca ouve tanto silêncio no mundo, os cinemas e os teatros só servem aquém ficou sem casa e desistiu de a procurar, algumas salas de espetáculos, as maiores, tinham sido usadas pelo governo, ou o que dele ia sucessivamente ficando, ainda cria que o mal-branco poderia ser atalhado com instrumentos e truques que de tão pouco tinham servido no passado contra a febre-amarela e outros pestíferos contágios, porém isso acabou-se, aqui nem foi preciso um incêndio. Quanto aos museus, é uma autêntica dor de alma, de cortar o coração, toda aquela gente, gente, digo bem, todas aquelas pinturas, todas aquelas esculturas sem terem diante de si uma pessoa a quem olhar. Do que estão os cegos da cidade à espera, não se sabe, estariam à espera da cura se ainda acreditassem nela, mas essa esperança perdereram-na quando se tornou público que a cegueira não tinha poupado a ninguém, que não ficara uma única vista sã para olhar pela lente de um microscópio, que tinham sido abandonados os laboratórios, onde não restava às bactérias outra solução, se queriam sobreviver, que devorarem-se umas as outras.”
Fechou o livro sobre a mesa, com os olhos pesados e a cabeça mais ainda. Sabia de que tipo de cegueira se queria falar, quando Saramago falava no mal-branco. Sentira ele mesmo na pele muito do que podia ler nas páginas que antecederam a de número 232, do livro que agora repousava displicentemente sobre sua mesa de pensar.
O relógio marcava acusador: 2:12 horas da manhã. Que jovem rapaz, de vinte e cinco anos, com uma mente brilhante e um futuro promissor estaria fazendo a esta hora de uma terça-feira? Não deveria estar aqui, deveria estar dormindo, cansado pela exaustão de um dia atribulado com os afazeres de pessoas que vão “dar certo” na vida. Deveria ter acordado cedo para trabalhar, ido de lá para a Universidade e da Universidade (que há muito tempo perdeu a razão de ser do seu nome) para casa, isso já muito tarde da noite.
Este rapaz, no entanto, era diferente. Simples assim. De alguma forma sua capacidade de acreditar em seu próprio potencial e brilhantismo estava reduzida a nada, a uma inexistência tão concisa quanto uma cadeia de carbonos pode ser, mas obviamente, uma cadeia de carbonos que apesar da pressão e concisão a que estava submetida, era incapaz de brilhar.
Ali ao lado, empilhado junto ao livro que acabara de ler se amontoava outros, um deles havia sido escrito a respeito de Marx, um pobre oportunista, que vivera às custas de Engels, nunca terminara de escrever sua grande obra e sonhara com um mundo em que os homens poderiam ser o que quisessem – o que no momento soava como a coisa mais absurda que poderia ter ouvido na vida.
Pra merda com sonhos, agora não queria mais nada – ou queria? Não tinha mais sonhos – ou tinha?
Era difícil compreender exatamente o que estava acontecendo em sua vida. Repentinamente as coisas haviam virado de pernas para o ar. Ele não tinha mais um futuro certo, com data exata para acontecer. Todos os prazos estouraram, e de repente ele compreendeu o ódio que dominava o velho pobretão: Marx tinha raiva do dinheiro porque ele não o tinha, talvez se o tivesse, não teria se voltado contra ele. Mas ele havia vivido seu inferno pessoal – vivera no mais pobre dos bairros ingleses do século XIX, tivera a dor de perder suas filhas para a doença que assolava aquela terra e ceifava a vida daqueles desprovidos de recursos.
Não quero fazer nenhum discurso ideológico, não, não é isso. Minha função é somente de alguma maneira continuar a descrição dos sentimentos de alguém que não sabe mais quem é exatamente, nem exatamente que passo vai dar depois que tiver coragem para pensar no futuro. Sabe pensar no futuro é algo que pode doer muito, principalmente se você não pode planejá-lo.
Sabe, alguns dizem que o jovem rapaz que fechou o Ensaio sobre cegueira sobre a mesa às 2:12 da manhã, é ele próprio um cego, acometido não por uma doença, mas várias – todas de ordem psicológica, e infames. Dizem que ele é um cego do pior tipo: do cego que vê, mas nega – aquele tipo de cego que vê, mas não enxerga. E dizem mais, dizem que foi cegado pelos seus próprios desejos, sentimentos e escolhas. Talvez estejam certos – mas são todos os que ouvi dizerem isso, também cegos, cegados por suas próprias vontades, e por um desejo irrefreável, e por isso mesmo irrepreensível, de fazerem com que todos enxerguem o mundo como eles esperam que o mundo seja.
A mim, que não sou um narrador onisciente, mas extremamente pretensioso e cheio de intenções das mais ambíguas digo que o rapaz apenas está escrevendo o romance de sua vida, um romance que não terá um fim instantâneo nem indolor. Um livro regado a lágrimas, exatamente por não poupar fracassos, dores e amores. Uma vida cheia de alma e sonhos. Uma vida que talvez seja de pecados ou talvez de inocência – não importa. O rapaz em desespero, que fechou o livro à 2:12 horas da manhã, é tão Cego quanto o resto do mundo que o lê: vê e não compreende, lê e não entende – chora mas não se repreende.

3 comentários:
Tá eu confesso - eu tava esperando algum comentário *~*
É difícil ter vinte e cinco anos. Mas ele ainda tem a vida toda pela frente.
Muito bom! Virão outros capítulos?
Quanto tempo, rapaz! Abraço!
Sim, mas preciso dar uma paradinha pra continuar =)
Abração !
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