Embora eu soubesse com toda a certeza que estava parado em um ponto de ônibus, entre a a Av. Paulista e a Consolação - a metáfora não era uma metáfora, era mais uma sensação de incomoda consciência.
O que teria levado aquela coisa, pois pra mim de algum modo parecia ter perdido sua humanidade há longos anos, até aquele ponto. Enrolada em um cobertor sujo, num dia que os ventos faziam crer muito mais frios que os 10 ºC que marcavam o relógio, a senhora tentava encontrar uma posição confortável, queria dormir - ignorando a chuva insistente e o frio, ignorando os passantes e o relógio que dizia serem quatro horas - embora as luzes fizessem crer a qualquer um ser bem mais tarde.
Aquela ferida purulenta, regurgitou mais uma vez, antes de acomodar-se mais uma vez sobre o cobertor que fazia as vezes de pele e descansar. Por Cristo! Eu estava nauseado, encontrei um canto mais distante alguns metros em que a visão daquela mulher pudesse sumir, e o enjoo passar. O que me enojava, não era tanto a mulher, eram os pensamentos que me surgiram como bofetadas:
"- Aquela mulher Rafael, perdeu os sonhos, certamente perdeu todos. E agora está aqui jogada como tantos outros na calçada. Porque você se esconde? Tem medo de sua própria mesquinhez, aquela mesma mesquinhez que não muito tempo atrás te fez dizer dentro de si: não há mais jeito. Os homens quando perdem seus sonhos ficam assim - se tornam caricaturas de sua humanidade, jogados como trapo velho em qualquer esquina que lhes dê alguma proteção."
Sentia ódio dessa voz, que era a minha mas ao mesmo tempo era de outro.
"-E o que foi que a trouxe aqui? Ah! Você sabe muito bem o que a trouxe aqui, meu caro. Ela, mas ela teve algo mais. Ela foi empurrada do abismo."
De repente me dei conta do que eu queria dizer. Eu estava no meio do que me disseram os jornais e muitos livros que li, ser o centro econômico da América Latina. Naqueles prédios envidraçados ao alcance dos meus olhos eram produzidos os bilhões que enchiam de orgulho aqueles como eu. Mas de repente senti o cheiro de sujeira que vinha daquela mulher e o que li já não me fazia mais sentido.
"-Você também se acha oprimido pelas mesmas forças que levaram aquela mulher ao seu estado de loucura, não sente? Talvez, em algum momento já tenha se imaginado sob um cobertor puído, exatamente como aquela coisa que você na sua mente chamou de ferida, não é mesmo ?!? Sim eu sei que sim! Mas você não teria coragem, não chegaria tão longe..."
Não eu não conseguia me ver deitado no meio da sujeira com o frio dilacerando meus nervos. Aquele deus que fazia mover as engrenagens da civilização poderia ser cruel, mas será que seria tanto? Sinceramente as vozes acusadoras da minha mente me colocaram uma duvida que jamais quero responder, acho que preferiria a morte àquilo.
.........
Mais tarde naquele mesmo dia, voltava pra casa. A noite era extremamente mais gelada que fora todo aquele dia, e uma neblina espessa cobria todas as coisas que estivessem há mais de dois metros de distância. Eu estava com duas blusas, e um capuz sobre a cabeça cheia de pensamentos.
Não sei porque, mas a cena daquela mulher na Av. Paulista mexeu com minha mente. Lembrava agora que pouco antes do ônibus que esperava para levar-me ao meu destino, ouvira a mulher gritar. Eu não podia ver o o rosto dela, mas sabia que dormia. Ela estava sob aquela coisa suja, tentando esquentar-se e esquecer tudo que a oprimia do lado de fora de sua mente. Cerrando os olhos escapava para o mundo que existia na parte de dentro dela, mas esse mundo também não era bom.
"-Cachorro! Me solta seu cachorro! Olha ele! Alguém me ajuda!"
Ela gritou numa voz esganiçada ainda muitas outras coisas, que eu não quis ouvir. Estava assustado com aquela loucura, que já havia visto ainda outras vezes, mas que ontem me fizeram sentir mais medo do que já sentira antes.
Acelerei meu passo, abri o guarda chuva negro para proteger-me da chuva que ainda caia e tentei esquecer a mulher, a ferida e as engrenagens que movem aquilo que eu chamo de mundo, mas muitos ainda chamam de inferno.


3 comentários:
Rafa, o blog está ótimo! Não sabia que você escrevia (:
Parabéns!
Escreve muito bem mesmo!
E daí Rafael!
Excelente postagem! Quase a todo instante me sinto oprimida por este tipo de situação e não tenho dúvidas de que seres humanos sob estas condições são vítimas sociais. São nossas vítimas!
Belo blog!
Abraço Dr.
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