segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Reflexões de 10 minutos

Hoje andei pelas ruas da cidade, do Paraíso à Consolação com os olhos fixos em letras que tentavam me dizer o que era inteligência e tantos outros mistérios. Estava distraído - queria estar distraído. Andei mais de um quilometro absorto nas letras, não vi o que me cercava, pouco me importei com as nuances que transformam os lugares familiares em lugares únicos quando prestamos-lhes atenção.



Cada passo foi dado no escuro, mas confiante, pois conhecia o destino, sabia onde queria chegar. Nenhum poste, nada no caminho que me surpreendesse de modo que eu não pudesse evitar. Desejei agora poder levar a vida assim: absorto em pensamentos, alheio ao mundo externo, sedado por letras que pouco ou muito me dizem.


Queria que meus passos me tirassem dos caminhos da Consolação e me levassem aos do Paraíso.

sábado, 23 de agosto de 2008

Noite de Insônia

As noites de insônia parecem não querer me abandonar nunca, acho que encontraram em meus olhos vermelhos algum tipo de encanto ou paixão. Confesso que também caí de amores por ela, madrugada.Talvez seu encanto esteja no fato de começar escura e terminar na alvorada ou ainda na sua doce voz que sussurra ao ouvido dos mais atentos segredos que a ninguém se revela.

Li muita coisa, ouvi tantas outras. Decidiram me visitar dois velhos amigos, um deles, inclusive, já não respira: Darcy Ribeiro e Saramago. Conversamos muito e suponho que quem passar por aqui esteja curioso para saber sobre o que falamos. Transcreverei uma coisa ou outra, até porque não poderia ser mais claro do que eles foram quando compartilharam suas idéias. Fiquei fascinado.

Nos últimos anos, pouco a pouco, no Brasil e no mundo, as ideologias políticas, os pendores revolucionários e os fervores religiosos tradicionais perderam o poder de atração sobre o povo. Começaram, ao mesmo tempo, a difundir-se seitas e práticas místicas que, com o apelo a biorritmos, drogas, astrologia, dietas místicas e feitiçarias, orientam a vida de milhões de pessoas, devolvendo-lhes o equilíbrio emocional indispensável para enfrentar suas existências azarosas, mas desativando-as como protagonistas da história, como construtoras de seus próprios destinos.(Darcy Ribeiro)

Quando ouvi isso virei pensando em dizer qualquer coisa, mas antes que pudesse formular qualquer idéia a altura do comentário do nobre colega, meu amigo das Ilhas Canárias disse:

Duvido que nos tempos mais próximos as idéias socialistas tenham qualquer oportunidade, porque aquilo que se passa com os partidos socialistas...a primeira coisa é que não são mais socialistas e quem governa o mundo é o dinheiro.

Perguntei para o velho Saramago, se ele não estava exagerando, afinal ainda tínhamos no país um presidente com origem no mal fadado socialismo. Mais que pronto ele retrucou meio rabugento, mas nem por isso desprovido de sapiência:

Eu esperava mais e melhor. O Lula apresentou-se como alguém que iria resolver aquilo. Mas estava claríssimo que ele não podia. Se não mudava, se não transformava as lógicas do poder que fazem do Brasil um país um pouco estranho neste particular é que no fundo não há partidos, há grupos de interesses, alianças que se fazem e se desfazem consoante as conveniências. Há uma espécie, não quero dizer, não quero chamar de, digamos "caciques", mas há qualquer coisa que vem, digamos, na linha do "caciquismo" que é o influente político que não sabe muito bem porque é que ele ganhou aquele poder, mas a verdade é que o ganhou. E como é que o Lula, supondo que representava essa utopia de justiça social, resolução dos problemas de...gravíssimos que tem o Brasil neste particular, é...como é que ele ia resolver? Sozinho? Como uma espécie de Joana D'Arc que vem digamos, de lança em riste resolver tudo? É claro que não podia.

Foi então que percebi que ainda acreditava em utopias, mas que não havia mais quem lutasse ao meu lado por elas. Estavam todos os que um dia empunharam armas pela liberdade pondo seus corpos carcomidos nas sepulturas ou tinham se vendido a uma vida sem maiores preocupações além do simples sobreviver.

Não demorou muito e minha consciência, como sempre, veio lá da cozinha - intrometida - apontando o dedo pra mim!

Desculpa, mas você comentou o que aí? Que é um absurdo o ponto que chegamos?!? Que concorda com o Saramago? Só acho que você esqueceu de uma pequena coisa: em que você difere destes que você critica?

Se orgulho ferido fosse doença fatal, teria dado as mão para o Darcy e voltado junto com ele pra casa. Felizmente (ou infelizmente) não morri.

Queria dia desse poder me erguer e repetir as palavras de Rui Barbosa sem qualquer constrangimento:

"Liberdade! Entre tantos que te trazem na boca sem te sentirem no coração, eu posso dar testemunho da tua identidade, definir a expressão do teu nome, vingar a pureza do teu evangelho, porque no fundo da minha consciência eu te vejo como estrela no fundo do obscuro espaço. Nunca te desconheci, nem te trairei nunca;porque a natureza impregnou dos teus elementos a substância do meu ser."

Ainda é só um sonho, mas quem sabe o que vem pela frente?