Quinta-feira, 21 de Maio de 2009



Sempre achei muita ignorância, no mínimo uma pretensão às avessas essa mania nacional de achar que nossa corrupção é sempre mais negra e fétida que as que se instalam nas “câmaras de representantes populares” nas Nações “democráticas” ao redor do Globo – e sempre acreditei nisso, até porque nunca vi meus conterrâneos, a mim e a minha Terra com olhos de quem merece permanecer à margem do mundo como um país satélite, sempre e eternamente há um passo do milagre que nos lançará como o País da vez.

Pedindo a vênia necessária, transcrevo fato ocorrido nas terras da Rainha - e que fez muitos ingleses descerem das tamancas - nas palavras de Ivan Lessa:

“Corrupção em Westminster. Todo dia fazendo manchete. A Câmara, na sexta feira, chegou a ser chamada de “casa de maus costumes”, ou seja – isso mesmo – casa de tolerância. Para ser mais delicado: “malversação de verbas de gabinetes e auxílios parlamentares”, conforme a Folha de São Paulo colocou a coisa em linguagem eufemista que faria Shakespeare se roer de inveja.”

Peço perdão aos que ainda estão lendo e pensam que vou discorrer sobre a falta de vergonhas destes senhores, que como os senhores de cá, se lambuzaram, se lambuzam e continuarão ainda por muito tempo a lambuzarem-se com a res pública. Que são sem vergonhas, mau caráter e aproveitadores, não há dúvida, mas também o são muitos que não tiveram competência suficiente para serem eles os beneficiários das benesses da vida pública.

Que seja. Quando comecei a escrever falava dos brios tupiniquins, e volto agora a isso: Corrupção em casa é uma coisa, corrupção no estrangeiro é malversação de verbas públicas. Por vezes sinto que nosso país nunca teve em seu caráter aquela característica humana que faz da adolescência algo tão inusitado, e que dá virilidade aos 20 e poucos anos. Falo daquele sentimento que nos faz acreditar que não existem barreiras altas o suficiente para esmaecer nossa vontade de saber o que existe do outro lado.

Stephen King, na introdução do Pistoleiro, lembra desse tipo de ignorância branca que contamina a humanidade, quase que endemicamente. Uma vontade cega de desafiar qualquer coisa que se pareça algo interessante de ser desafiado. Aquele tipo de motivação inconseqüente que permitiu ao homem ultrapassar as barreiras não só nas ciências, mas em todas as áreas da vida humana. É essa a idade em que o homem sonha aonde quer chegar, e tem sangue, músculos e vontade suficientes para avançar e concretizar o que imaginou – como se fosse um super-homem, invencível, inquebrável, irretratável – alguém que segue adiante, e só. Logicamente, que o que se segue, no inverno e no outono da vida não é menos encantador, mas é vazio se não precedidos pelo calor desses dias de sol.

Enoja-me esses eufemismos midiáticos. São fracos, sem coragem, despojados de sua essência – onde está Folha de São Paulo a acidez que reserva aos escândalos do Planalto Central, quando falamos das Terras do Norte? Ou será que só há esse poder cáustico quando há interesses envolvidos, ou digo mais claro: quando o alvo dos ataques é o Palácio da Alvorada e seus atuais ocupantes?

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Tudo vai ficar bem - Pato FU

Sei que tudo vai ficar bem
Só não sei se vou ficar também

Eu faço tanta coisa
Pro mundo melhorar
Eu faço de um tudo
Que posso pra ajudar

Eu distribuo amor
Eu curo solidão
Mas peço por favor
Alguém me dê a mão

Sé que todo va a estar bien
Lo qué no sé es se sobreviviré
Sé que todo va a estar bien
Lo qué no sé es se yo me salvaré

Estoy comprometida
El mundo hay que cambiar
Y en esta corta vida
El verbo es ayudar

Yo distribuyo amor
Con toda soledá
Y pido por favor
Que mi tengan piedad

A vida da trabalho
Se lo digo señor
Eu digo pra senhora
La muerte es un horror

Eu luto só por paz
Ajudo meu irmão
Mas sinto que o destino
Quer me jogar no chão

Sé que todo va a estar bien
Lo qué no sé es se sobreviviré
Sé que todo va a estar bien
Lo qué no sé es se yo me salvaré

Sei que tudo vai ficar bem
Só não sei se vou ficar também

Sexta-feira, 27 de Março de 2009


O que dizer depois de tudo o que se passou?

Nada - basta um sorriso e está dito, como jamais poderia uma palavra, que foi bom - que tudo terminou bem!

Domingo, 22 de Março de 2009

Reflexões


"Permita que eu feche os meus olhos,

pois é muito longe e tão tarde!

Pensei que era apenas demora,

e cantando pus-me a esperar-te.

Permita que agora emudeça:

que me conforme em ser sozinho.


Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.

Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,

e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"

 



Nunca sei como vou começar, nem muito menos quais terão sido as palavras que escritas no momento em que eu decidir que está pronto: que falei o que queria dizer.

 

Talvez eu nunca tenha dito uma palavra sincera - talvez as coisas que disse eram apenas subterfúgios de uma alma confusa entre o certo e o errado. Entra a esperança de uma vida feliz e a certeza do desconhecido.

 

Passo os dias observando os transeuntes, seus sorrisos e suas lágrimas, procuro em cada olhar um sentido que explique meus próprios caminhos - mas volto para casa com a única certeza de que não conseguirei nestas atitudes encontrar a paz que tanto quero, os sorrisos que tanto espero.

 

Ao menos algumas vezes, quando estou sozinho e pensando, me pego em devaneios irreais: como que em sonhos desenhados num lugar só meu. As cores destes sonhos, as luzes desses dias - tudo me faz sereno - sou feliz e dócil nestes sonhos como as estrelas em seu rumo ao infinito.


"Sê o que renuncia

Altamente:

Sem tristeza da tua renúncia!

Sem orgulho da tua renúncia!

Abre a tua alma nas tuas mãos

E abre as tuas mãos sobre o infinito.

E não deixes ficar de ti

Nesse último gesto!"

 

 

*Poesias de Cecília Meireles

 

A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande 
que me anula como pessoa atual e comum: 
é uma lucidez vazia, como explicar? 
assim como um cálculo matemático perfeito 
do qual, no entanto, não se precise. 

Estou por assim dizer 
vendo claramente o vazio. 
E nem entendo aquilo que entendo: 
pois estou infinitamente maior que eu mesma, 
e não me alcanço. 
Além do que: 
que faço dessa lucidez? 
Sei também que esta minha lucidez 
pode-se tornar o inferno humano 
- já me aconteceu antes. 

Pois sei que 
- em termos de nossa diária 
e permanente acomodação 
resignada à irrealidade - 
essa clareza de realidade 
é um risco. 

Apagai, pois, minha flama, Deus, 
porque ela não me serve 
para viver os dias. 
Ajudai-me a de novo consistir 
dos modos possíveis. 
Eu consisto, 
eu consisto, 
amém. 

(Clarice Lispector)

Domingo, 8 de Março de 2009

Pensamentos sobre Torrent e P2P



Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

A menina dos fósforos

Este conto era um dos meus preferidos quando criança, mas já havia muito que eu não o lia - acho que vale a pena compartilhar!


"Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.

Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.

Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.

Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.

«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»

Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!

— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.

Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.

Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo."

Hans Christian Andersen
Os melhores contos de Andersen
Editora Verbo, s/d

Adaptação

* Imagem editada e escolhida por Brunno Kill